quinta-feira, 10 de junho de 2010

Mudança


Seu problema era a timidez. Isso o atrapalhava em sua vida social. Tinha dificuldades para falar em público, por isso isolara-se. Se na escola alguém falava com ele, dava respostas monossilábicas. Quando alguma garota lhe dirigia a palavra, corava e nenhuma sílaba saía. Era vítima de todos os tipos de chacotas. Achavam-no esquisito.

Um dia, movido por um impulso típico da adolescência, resolveu fazer uma tatuagem, um dragão vermelho no braço direito. Sem saber por que, sentiu-se mais forte com aquele desenho. Sabia que para os chineses o dragão era sagrado. “Talvez eu devesse ter nascido chinês”, pensou. Não contou a seus pais. Eles eram muito bravos. Fez isto escondido. Ao chegar em casa, trancou-se no quarto, ficando horas em frente ao espelho, admirando a obra em sua pele.

No dia seguinte, na escola, arregaçou as mangas da camiseta e na hora do intervalo, desfilou pelo pátio, exibindo o braço tatuado. Todos se admiraram. Aproximaram-se dele. Puxaram conversa. Queriam saber detalhes do processo de tatuagem. Perguntavam-lhe se doera e porque escolhera um dragão. As meninas sorriram diferente. Sentiu-se outra pessoa. Não era mais o introvertido que não conseguia conversar com ninguém.

Na sala de aula, as garotas que sempre se sentavam longe, agora estavam bem próximas. Bombardeavam-no com olhares insinuantes e, a cada cinco minutos, uma lhe falava em tom doce, quase sexual: “Me deixa ver sua tatuagem”.

Ao sair dali, gastou o resto de sua mesada em outra tatuagem. Dessa vez, fez um anjo montado numa rosa gigante na coxa direita, próximo à virilha. Quando alguma garota lhe pedia para mostrar o dragão, ele exibia-o, dizendo: “Tenho outra mais bonita. Quer ver?”. Sua fama começou a correr pela escola. Os outros garotos respeitavam-no e invejavam-no. As meninas admiravam-no.

Numa tarde calorenta, aproveitando-se que seus pais estavam trabalhando, ele deitou-se, nu, no sofá, ao som de Guns ‘n’ Roses. Ao fim de três canções, adormeceu. Duas horas depois, flagraram-no com as tatuagens a mostra. Seu pai deu-lhe uma surra, várias cintadas nos locais tatuados. “Suba ao seu quarto e não saia de lá até ordenarmos!”, gritou sua mãe. Lá de cima, podia ouvi-los conversando a respeito dele. Discutiam um jeito de remover as tatuagens a laser.

À noite, enquanto seus pais dormiam, saiu de casa, levando consigo uma mochila com tudo que julgava indispensável. Foi a última vez que o viram na cidade.

Flávio Soares

5 comentários:

Mikaele Ephemeron disse...

sei lá, mas na parte da timidez acho que me identifiquei! Gostei daqui, seguindo esse blog já...rs

beijos!

Mikaele Ephemeron disse...

estou seguindo aqui tbm.. adorei seus textos, super pessoais, me identifiquei cm alguns....geral!

Eliana disse...

Como eu entendo isso!

Edson Bueno de Camargo disse...

Minha cidade me surpreende o tempo todo.

Gostei do blog, e minto que me identifiquei como o personagem, só que um eu meu que já morreu á muito tempo. acho que este é o drama de todo adolescente.

Thiago Almeida disse...

Engraçado como sua história se encaixará nas lembranças de muitos que passarão por aqui. Um conflito típico, porém cheio de elementos pessoais que, cada um de nós, fazemos questão de lembrar. Numa mesa de bar, algumas fotografias ou quando toca aquela canção no rádio, lá está ela... A lembrança da nossa adolescência.