segunda-feira, 5 de julho de 2010

Televisão em preto e branco

Nos anos 90
eu assistia desenhos animados
numa televisão em preto e branco
para mim, aqueles
eram os melhores programas do mundo.
Meu pai tinha um rádio a pilha
que mais parecia um cacho de abelha
tamanho era o chiado que produzia
para ele, era o melhor rádio do mundo.

Um dia, enquanto estavámos a passeio
ladrões invadiram nossa casa
e levaram os aparelhos.
Meu pai ficou furioso
não pelo prejuízo, mas pela estima
que possuia por seu rádio
eu, no fundo, gostei
porque minha mãe o convenceu
a comprar uma TV a cores
e um som que tocasse CD.

Meu pai chorou três dias
ninguém entendeu por quê.

Hoje
assistindo programas
que não me agradam
compreendo a tristeza de meu velho
e sinto saudades daquele televisor em preto e branco
que passava os desenhos que eu gostava.

Não gosto mais de TV
choro todos os dias
ninguém entende por quê.

Flávio Soares

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Mudança


Seu problema era a timidez. Isso o atrapalhava em sua vida social. Tinha dificuldades para falar em público, por isso isolara-se. Se na escola alguém falava com ele, dava respostas monossilábicas. Quando alguma garota lhe dirigia a palavra, corava e nenhuma sílaba saía. Era vítima de todos os tipos de chacotas. Achavam-no esquisito.

Um dia, movido por um impulso típico da adolescência, resolveu fazer uma tatuagem, um dragão vermelho no braço direito. Sem saber por que, sentiu-se mais forte com aquele desenho. Sabia que para os chineses o dragão era sagrado. “Talvez eu devesse ter nascido chinês”, pensou. Não contou a seus pais. Eles eram muito bravos. Fez isto escondido. Ao chegar em casa, trancou-se no quarto, ficando horas em frente ao espelho, admirando a obra em sua pele.

No dia seguinte, na escola, arregaçou as mangas da camiseta e na hora do intervalo, desfilou pelo pátio, exibindo o braço tatuado. Todos se admiraram. Aproximaram-se dele. Puxaram conversa. Queriam saber detalhes do processo de tatuagem. Perguntavam-lhe se doera e porque escolhera um dragão. As meninas sorriram diferente. Sentiu-se outra pessoa. Não era mais o introvertido que não conseguia conversar com ninguém.

Na sala de aula, as garotas que sempre se sentavam longe, agora estavam bem próximas. Bombardeavam-no com olhares insinuantes e, a cada cinco minutos, uma lhe falava em tom doce, quase sexual: “Me deixa ver sua tatuagem”.

Ao sair dali, gastou o resto de sua mesada em outra tatuagem. Dessa vez, fez um anjo montado numa rosa gigante na coxa direita, próximo à virilha. Quando alguma garota lhe pedia para mostrar o dragão, ele exibia-o, dizendo: “Tenho outra mais bonita. Quer ver?”. Sua fama começou a correr pela escola. Os outros garotos respeitavam-no e invejavam-no. As meninas admiravam-no.

Numa tarde calorenta, aproveitando-se que seus pais estavam trabalhando, ele deitou-se, nu, no sofá, ao som de Guns ‘n’ Roses. Ao fim de três canções, adormeceu. Duas horas depois, flagraram-no com as tatuagens a mostra. Seu pai deu-lhe uma surra, várias cintadas nos locais tatuados. “Suba ao seu quarto e não saia de lá até ordenarmos!”, gritou sua mãe. Lá de cima, podia ouvi-los conversando a respeito dele. Discutiam um jeito de remover as tatuagens a laser.

À noite, enquanto seus pais dormiam, saiu de casa, levando consigo uma mochila com tudo que julgava indispensável. Foi a última vez que o viram na cidade.

Flávio Soares

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A Alberto Caeiro, o mestre

Eu descobri o pasmo essencial
infelizmente, não me é perfeito
perdi a inocência de não pensar
não olho para o mundo
como uma abelha vê uma flor desabrochar
miro tudo que existe
com a tristeza de um homem feio
quando contempla uma mulher bonita.

Desculpe, mestre
eu falhei.

Flávio Soares

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O inferno

"Talvez esse mundo seja o inferno de outro planeta"

Aldoux Huxley


"De tanto ver triunfar as nulidades
o homem chega a desanimar da virtude
rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto"

Rui Barbosa



Acredito que já tive uma outra vida
quem sabe em outro planeta
e devo ter sido desprezível.

Amei mais a mim do que a Deus
matei, roubei, desonrei meus pais
cantei injúrias, desejei a mulher do meu amigo
fiz todo tipo de heresia.

Então, quando morri dirigi-me ao céu
São Pedro, nunca vi santo mais covarde, impediu-me
de entrar no reino do Senhor
fechando os portões na minha cara.
Insisti. Apelei para o arrependimento
disse que todos mereciam perdão
humilhei-me sem saber por quê.
Acho que só queria assistir
a tragicomédia do universo
dum lugar confortável.

Chamaram os outros santos
fizeram uma assembleia
levaram o caso à Jesus
mas não deu em nada
tantos apelos de pobres e desamparados
e eles preocupados comigo.
A justiça é repugnante.


Quando já não sabiam o que fazer
Deus apareceu:
"Vais penar na Terra.
A honestidade será seu calvário"



Flávio Soares

sexta-feira, 26 de março de 2010

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Encontraram uma jovem morta

Acharam uma jovem morta
enforcou-se à noite, sob a luz lunar
ao som de Mozart.
Quando encontraram-na
dolorosas notas de piano
faziam pensar na solidão
e numa sala escura num dia de chuva.
Em seu bolso, três papéis:
um poema de Florbela Espanca
um bilhete suicida
e uma carta de amor
que nunca chegou a enviar.

Flávio Soares

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Uma noite sem álcool

1 hora da manhã
a cerveja acabou
e todos os bares estão fechados
tudo que tenho é um cigarro
que fumo, pesaroso
ouvindo a voz de Renato Russo
sair, triste, do rádio.

A inquietude me sugere alguns versos.

Vez ou outra um carro passa
roncando, estrondoso
ou uma coruja pia em seu voar
e nada mais.

É tão perturbante
uma noite sem álcool.

Flávio Soares